Celebrity Traitors funciona porque a fama deixa de proteger qualquer um
O sucesso da BBC transforma a celebridade em risco: os famosos mentem, viram suspeitos e perdem a pose, e a persona polida é a primeira baixa.
Foto: JaceMerlyn / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Por que um castelo nas Highlands, uma pilha de capas e um bando de famosos acusando uns aos outros de assassinato parecem mais honestos do que uma década de entrevistas com celebridades? Porque Celebrity Traitors pega aquilo que as estrelas fazem melhor, cuidar da própria imagem, e o transforma em um problema.
O jogo pune o verniz
Os fatos do penúltimo episódio parecem a paródia de uma coletiva de imprensa de divulgação que saiu do controle. O comediante James Acaster, que por conta própria nunca quis ser um Traitor, foi banido depois de admitir na mesa redonda que era um. Sua frase, “Eu sou, relutantemente, um Traitor”, vai durar mais que a temporada. Enquanto isso, Maya Jama brindou no café da manhã “a matá-los, até a bani-los” e, como informa o WalesOnline, explicou depois no X que “o Traitor estava saindo de mim”.
Olhe para o que realmente está sendo consumido aqui. Não é o charme do tapete vermelho, mas cansaço, escorregões, defesas desajeitadas e um comediante que não consegue mentir. O prêmio é de respeitáveis 64.500 libras (£64,500) para caridade, mas ninguém assiste por causa do dinheiro. As pessoas assistem para ver gente profissionalmente impecável falhar em ser impecável.
A fama é a arma, não a decoração
A maioria dos formatos de reality com famosos trata a fama como cenário: coloque celebridades numa selva, numa cozinha ou num estúdio de dança e deixe a marca fazer o trabalho. Traitors faz o oposto. A reputação é a moeda. Michael Sheen foi alvo de desconfiança na mesa redonda, com James Blunt apontando-o como o “pai” do grupo, o responsável por os Traitors serem “guiados na direção errada”. Já Romesh Ranganathan disse a todos que olhassem para “os mais quietos”, citando Acaster e Jama, e Sheen observou que eles “nunca tinham sido alvo de suspeita”. Ser confiável, charmoso e simpático é exatamente o que faz de você um Faithful perfeito ou um assassino perfeito.
É um uso da celebridade mais inteligente do que qualquer coisa que um talk show possa oferecer. O público já carrega uma ficha mental dessas pessoas. O formato simplesmente pergunta: quanto dessa ficha é verdade? Acreditamos que essa tensão é o verdadeiro motor do programa, mais do que os assassinatos.
Também nivela o status. Julie disse à Good Housekeeping, como relata o The Tab, que lá dentro “não existe nenhum status” e que as amizades nascem nos carros, onde ninguém pode falar sobre o jogo. Um castelo sem hierarquia é raro para quem é famoso, e isso aparece na tela.
Leigh-Anne Pinnock é a prova de conceito
A história mais reveladora não é a reviravolta, mas a discreta. O Daily Mail informa que Leigh-Anne Pinnock credita ao programa ter recuperado sua “confiança e voz” depois de “se encolher” no Little Mix. Ela também disse que se sentiu “um pouco subestimada” no castelo e que se segurou por causa “desse medo de ser assassinada”.
Leia isso duas vezes. Uma estrela pop com anos de grande visibilidade diz que um jogo de salão devolveu a ela a voz. Não faríamos disso uma grande história de terapia, já que temos apenas as palavras dela e não todo o contexto. Mas isso se encaixa direitinho na tese: a fama roteirizada reduz as pessoas a uma marca, e um formato com riscos reais, por mais bobo que seja, as obriga a falar, desconfiar, discutir e errar em público.
O caso dela também tem uma bela ironia. Ela conta que a sensação de ser subestimada pode ter começado quando os outros participantes a apontaram como a que estava com a “cabeça nas nuvens”. Num jogo de suspeitas, na nossa opinião, esse tipo de rótulo pode ser um trunfo estratégico. A subestimação, que pode ser corrosiva num grupo pop, é camuflagem num castelo.
O veredicto
Celebrity Traitors não bomba por ser cruel. Bomba porque é justo: todos estão igualmente expostos, e o público vê habilidades que a fama costuma esconder, como engano, lealdade, nervosismo e, no caso de Acaster, uma incapacidade quase heroica de manter a encenação. As emissoras deveriam levar a lição a sério. Parem de pedir que as estrelas sejam elas mesmas num cenário agradável; deem a elas um problema que a imagem não consiga resolver.
A final desta noite pode trazer ainda mais caos, e um crítico do Mirror já chama esta de possivelmente a melhor temporada das duas versões britânicas. É uma opinião, e generosa, mas não discutiríamos. A melhor televisão com celebridades é aquela em que os famosos têm algo a perder além da dignidade, e ainda assim perdem um pouco dela.
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