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Redação Trendsfera
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Dom de Iludir prova que a melhor virada da Netflix é a velha novela

A nova série brasileira da Netflix se vende como melodrama, mas o truque de verdade é escalar dois veteranos das novelas para dar cara nova a uma história de golpes.

Publicado
28 de outubro de 2026
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Ainda é novela se dura só dez episódios e a Netflix chama de "melodrama"? Essa é a piada discreta por trás de Dom de Iludir, a série brasileira que chegou ao mundo todo em 28 de outubro de 2026, com todos os episódios de uma vez. Tem doença misteriosa, mãe rica, família de golpistas e um elenco que parece reunião de ex-Globo. A gente diz: chame como quiser, funciona.

A proposta é de novela, a embalagem é de thriller

A premissa, segundo o Correio, é simples. Lúcia Rossetti (Marieta Severo), colecionadora de arte, está desesperada para curar a filha, Maíra (Alice Wegmann), que tem uma doença sem diagnóstico. Ela recorre a Irina (Nanda Costta), terapeuta espiritual da família de golpistas Petrov, clã que inclui Bóris (José de Abreu).

É uma premissa que qualquer autor de novela assinaria na hora. A Folha diz algo parecido: "melodrama" dá um verniz sofisticado a uma trama curta e veloz, cheia de atores e temas típicos do gênero. Para nós, é a sacada de marca mais esperta da temporada. A palavra é precisa, já que a Folha define melodrama como narrativa em que a emoção vem primeiro, em geral exagerada. E ainda evita a bagagem de "novela" para quem jamais daria play em 184 capítulos.

O apelo da "história real" é mais frágil do que as manchetes sugerem

Parte do burburinho vem da dúvida: a série é baseada em fatos reais? A documentação não resolve a questão. Um trecho de coluna da Folha F5 diz que a série se inspira num golpe real do mercado de arte no Rio. Outro veículo, o NSC Total, afirma que a trama pode lembrar um caso real, mas que a produção não é apresentada oficialmente como adaptação dele. Um terceiro, o Game Over Drive, diz que os materiais oficiais da Netflix, até 23 de outubro, não identificavam um caso real.

Portanto, trate "inspirada em golpes reais" como interpretação, não como crédito. Na nossa opinião, tudo bem, e talvez até melhor. Golpes são o motor perfeito do melodrama porque funcionam com o mesmo combustível das novelas: luto, vulnerabilidade e vontade de acreditar. A própria Nanda Costta diz, em entrevista ao UOL, que uma mãe vulnerável e desesperada é mais fácil de alcançar com a promessa de uma cura. Não precisa de selo de true crime quando a mecânica emocional já soa verdadeira.

Severo contra Abreu é o verdadeiro efeito especial

É aqui que a fórmula deixa de parecer reciclada. A Folha lembra que Severo e Abreu construíram longas carreiras nas novelas da Globo, com contratos de quase 40 anos, e deixaram a emissora em 2022 e 2020, respectivamente. A Netflix não está só pegando o gênero emprestado. Está usando a memória muscular de dois atores que passaram décadas aperfeiçoando-o, e colocando um contra o outro.

Soma-se o diretor Mauro Mendonça Filho, que a Folha também descreve como ex-Globo. Severo já trabalhou com ele em outras quatro ocasiões. Soma-se Alice Wegmann, que, segundo o mesmo texto, fez o remake de Vale Tudo no ano passado, e Nanda Costta, protagonista de Salve Jorge em 2012. Isso é menos uma série nova do que uma transferência de talentos muito bem administrada.

A mudança de formato também conta. O O Tempo cita Mendonça Filho: "Eu sempre fui da opinião que uma novela de 184 capítulos é possível se contar num filme." Ele acrescenta que aqui a narrativa do crime é o centro, mais até do que os personagens, e que dá para maratonar tudo em três dias. Severo, de 79 anos, diz à Folha que prefere cinema ou séries curtas como esta e não pretende voltar às novelas, porque um roteiro fechado e poucas cenas por dia dão valor ao trabalho. Lemos nisso um veredicto discreto sobre o modelo antigo.

O que ver e o que olhar com ceticismo

A Folha também conta que a série põe uma família rica contra golpistas pobres e logo transforma os vilões em debate sobre a falta de oportunidades nas periferias do Rio. Soa ambicioso, e pode ser aí que a série justifica sua existência ou vira slogan. Não dá para julgar isso só pelo material de divulgação, e ninguém deveria fingir o contrário.

A história maior é a tendência. A Folha cita Beleza Fatal, da HBO Max, e Pedaço de Mim, da própria Netflix, como outros melodramas de streaming construídos em torno de veteranos da TV. Até a música faz parte da proposta: a Billboard Brasil informa que Liniker lançou, no dia da estreia, sua versão de "Dom de Iludir", de Caetano Veloso, como tema da série.

Nossa recomendação: se você gosta de sagas familiares cheias de reviravoltas, dê play e aproveite o exagero. Não espere um docudrama. O próprio Mendonça Filho chama a série de montanha-russa em que as pessoas se revelam diferentes do que parecem, e a Folha avisa que as primeiras impressões não duram. A lição de verdade é para os streamings. Melodrama não é prazer culposo a ser disfarçado. É um gênero com público cativo, e dois veteranos de novela medindo forças na tela são a melhor prova.

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