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Redação Trendsfera
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Patrick Stewart fez a autoridade soar gentil, e por isso estamos de luto

O capitão Picard e o professor X eram chefes que seguiríamos para qualquer lugar. O dom de Patrick Stewart foi dar ao comando uma voz calorosa, e por isso essa perda parece tão pessoal.

Publicado
29 de outubro de 2026
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Foto: Peabody Awards / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Por que a morte de um ator que a maioria de nós nunca conheceu parece um telefonema de um parente? No caso de Patrick Stewart, a resposta é quase constrangedoramente simples: ele passou décadas interpretando o chefe que todos gostaríamos de ter.

Primeiro os fatos, em poucas linhas. Stewart morreu aos 86 anos na quarta-feira, em sua casa em Los Angeles, segundo um comunicado da família divulgado pela RTVE. A família disse que ele morreu depois do que chamou de uma "breve e comovente jornada" com a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy, com a esposa, Sunny, ao seu lado. As homenagens chegaram em poucas horas, da Marvel Studios a William Shatner e ao Huddersfield Town, clube para o qual torceu a vida inteira.

A voz fazia o trabalho que o figurino não conseguia

Pense em como isso era improvável no papel. Segundo o El Mundo, Stewart chegou à Califórnia em 1987 como um quase desconhecido. Não era trekkie, e até Gene Roddenberry duvidava de que um inglês careca, imerso em Shakespeare, pudesse comandar uma nave estelar. Os dois estavam errados. O que Stewart trouxe não foi um queixo marcante nem pose de valentão. Foi um barítono treinado ao longo de cerca de quinze anos na Royal Shakespeare Company.

Na nossa visão, é nisso que está todo o truque. A televisão está cheia de comandantes que gritam. O Picard de Stewart convencia. Ele fazia a autoridade soar como algo a quem você poderia confiar o seu pior dia, o que é bem diferente de temê-la. Quando Shatner diz que Picard "representava o melhor de nós, e o homem que o interpretou também", ele descreve algo raro: um líder fictício e um ator cujas reputações se reforçavam em vez de colidir.

Xavier era Picard com cadeira de rodas e uma escola

O segundo papel é a prova de que não foi sorte. O El Mundo observa que Charles Xavier era, em alguns aspectos, um papel parecido com o de Picard. Um mentor, um diplomata, alguém que vence a discussão sendo a pessoa mais calma da sala. A própria despedida da Marvel elogia a "compostura, a classe e a sabedoria" que ele deu ao personagem. Kevin Feige lembrou dele como "brilhante, encantador, caloroso, generoso, com uma força silenciosa e gravitas".

Isso é estereótipo de papéis? Talvez, mas nós chamaríamos de assinatura. O cinema de super-heróis é construído sobre poder: quem bate mais forte, quem voa mais alto. O Xavier de Stewart insistia que a pessoa mais poderosa da história era a que escutava. Provavelmente não é por acaso que essa se tornou a versão do mentor que uma geração absorveu sem perceber.

Figuras de conforto também são feitas de autoironia

Essa é a parte que se perde quando transformamos os mortos em mármore. Stewart não era empertigado. A longa carreira catalogada pelo Hipertextual inclui Robin Hood: Men in Tights, de Mel Brooks, a voz do narrador nos dois filmes de Ted e, sim, a voz do emoji de cocô em The Emoji Movie. Um ator com tanta gravitas que aceita isso está dizendo algo: a autoridade nunca foi uma pose que ele precisasse proteger.

Isso, a nosso ver, é o que fazia o calor humano parecer verdadeiro. Confiamos em quem tem poder e sabe rir de si mesmo, e a disposição de Stewart para isso é o motivo de Picard nunca ter parecido frio. Também combina com o retrato traçado pelo comunicado da família, que destaca seu ativismo em favor de sobreviventes de violência doméstica, refugiados, da saúde mental de veteranos e de pit bulls em lares temporários. A biografia por trás do barítono é uma infância de classe trabalhadora em Mirfield, Yorkshire, e a violência de um pai que ele depois transformou em militância. Sob essa luz, a calma parece menos uma técnica de atuação e mais algo conquistado.

O que fazer com o luto

Há uma nota de rodapé agridoce. Avengers: Doomsday, da Marvel, previsto para dezembro, será agora sua última aparição nas telas, póstuma, reunindo-o com o amigo Ian McKellen, segundo o Hipertextual. Poucos meses atrás, ele disse à TV Insider que não conseguia imaginar se aposentar oficialmente: "Serei sempre e para sempre um ator." É a frase que dói, porque soa como uma promessa que ninguém pôde cumprir.

Nossa recomendação não tem glamour. Não se limite a postar o trecho do "Make it so". Escolha um dos dois papéis, assista a um episódio ou a um filme do começo ao fim e repare em como ele raramente levanta a voz. Repare em quanto ele consegue mesmo assim. A lição da carreira dele é que os líderes que valem a saudade nunca foram os mais barulhentos da sala. Stewart passou seis décadas provando isso, e o fato de perdê-lo parecer como perder alguém da família mostra bem o quanto precisávamos disso.

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