A caminhada de 28 anos de Karl Bushby até em casa é um triunfo com conta a pagar
Admire a teimosia à vontade, mas uma caminhada que afastou um pai do filho de 8 anos merece tanto escrutínio quanto aplausos. Quem realmente pagou pela linha de chegada?
Imagem gerada por IA
É possível ser herói e exemplo a não seguir ao mesmo tempo? Karl Bushby, o ex-paraquedista que acaba de chegar a pé em Hull depois de 28 anos, defende com força que sim.
Os fatos são material de lenda. Segundo o Daily Express, Bushby, de 57 anos, atravessou a ponte Humber no domingo, 1º de novembro, exatamente 28 anos depois de voar para Punta Arenas, no Chile, para começar a caminhar. Ele percorreu cerca de 31 mil milhas (aproximadamente 50 mil km) empurrando um carrinho chamado The Beast e chegou à Inglaterra a nado, atravessando o Canal da Mancha em 5 de outubro. Multidões apareceram em meio à névoa, e Werner Herzog, que está fazendo um filme sobre a jornada, disse ao Grimsby Telegraph que aquela era a “última peça” da história.
Na segunda-feira, ele deveria estar na Queen Victoria Square, em Hull, e depois na casa da mãe. Também vai ver o filho, Adam, hoje com 36 anos, e conhecer uma neta de 12 anos.
A manchete é a distância. A história de verdade é a criança que ficou para trás
Este é o detalhe que as multidões em festa costumam pular. Bushby não o escondeu: o New York Post publicou uma exclusiva com a manchete “Deixei meu filho de 8 anos para trás há 28 anos para dar a volta ao mundo a pé”. Uma franqueza assim é rara em narrativas de aventura, e não vamos tentar melhorá-la.
Isso importa porque a história de aventura padrão é de subtração: um homem tira conforto, segurança e companhia até sobrar só a estrada. Mas a subtração nunca é só dele. Um menino de oito anos ficou para trás e cresceu ao longo de uma caminhada de 28 anos. O Yorkshire Post intitula a reportagem sobre Adam com a frase “Você só precisa do seu pai”, e, na nossa opinião, essa frase vale mais do que 31 mil milhas de estatísticas.
A obsessão precisa de plateia, e a plateia perdoa muita coisa
Acreditamos que o carinho do público por Bushby diz algo sobre nós. Adoramos pessoas de ideia fixa enquanto o custo ficar fora do enquadramento. Um homem que atravessa o Darién, caminha sobre o congelado Estreito de Bering e passa quase uma década abrindo caminho pela Rússia entre problemas de visto e clima severo, como relatou a Associated Press via Hindustan Times, dá um personagem lindíssimo. Um pai que perde o crescimento do filho é uma fotografia mais difícil.
Repare também em como o projeto mudou de formato. O plano original, segundo a mesma reportagem, era terminar em 12 anos. Levou mais que o dobro. Em algum momento uma viagem vira uma vida, e uma vida organizada em torno de uma meta pode, silenciosamente, deixar de ter espaço para quem não é a meta. Vistos, tensões geopolíticas e uma pandemia o atrasaram, é verdade, mas a decisão de seguir em frente, ano após ano, foi dele.
O final é a parte mais honesta
Merece crédito: Bushby não parece estar maquiando nada. O porta-voz dele disse que ele sente que “é o fim da vida como ele a conhece”, e ele disse à AP: “Meu propósito e minha razão de viver estão prestes a acabar”. Isso não é linguagem de volta olímpica. Parece alguém que construiu uma identidade tão alta que não sabe o que existe ao lado dela.
É essa a parte que acompanharíamos. O filme e o livro estão a caminho, segundo o Express. Nossa previsão, e é só isso: o relato vai ter a tentação de centrar na estrada, porque a estrada é cinematográfica. A versão melhor daria espaço de verdade às pessoas do outro lado, incluindo o filho que tinha oito anos quando tudo começou.
Nosso veredito
Admire a teimosia. Ela é real, é extraordinária, e os desconhecidos que o alimentaram e abrigaram pelo caminho merecem parte do crédito. Mas não confunda admiração com aprovação. A caminhada é um feito magnífico e, a nosso ver, um péssimo modelo. Se há uma lição, é que linhas de chegada saem baratas perto dos anos gastos para chegar a elas, e que outra pessoa pode muito bem estar pagando a diferença.
Se a volta para casa te emocionou, ótimo. Então dedique um pensamento ao filho que está no fim dela. Ele é a parte dessa história que nenhuma imagem de drone consegue captar.
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