Os primeiros passos de Ninão não são milagre: é isso que o cuidado sob medida significa
O homem mais alto do Brasil volta a andar com próteses sob medida. O que viralizou foi a caminhada; o que vale guardar é como é raro um atendimento feito para corpos como o dele.
Imagem gerada por IA
Por que chamamos de milagre quando um homem se levanta e quase nunca perguntamos quem fez aquilo em que ele se apoia? Joelison Fernandes da Silva, conhecido como Ninão, deu seus primeiros passos com duas próteses, e as imagens emocionam. Mas, na nossa opinião, essa é a parte menos interessante da história.
As imagens são a parte fácil
Ninão é reconhecido como o homem mais alto do Brasil, com 2,37 metros. Segundo o Diário do País, as duas pernas dele foram amputadas após complicações graves de osteomielite, uma infecção óssea que, no caso dele, evoluiu de forma agressiva. O G1 informou que ele deixou o hospital em Campina Grande numa segunda-feira, dia 20, depois de ter a perna esquerda amputada na sexta-feira anterior.
Agora, o Fantástico, do G1, mostra Ninão de pé, dando os primeiros passos com próteses feitas sob medida numa clínica em Sorocaba, no interior de São Paulo.
"Sob medida" é a expressão que faz todo o trabalho
Relei as manchetes. Várias destacam que as próteses são sob medida. Isso não é enfeite. Um corpo com 2,37 metros de altura e, segundo a Wikipédia, 169 quilos não é aquele em torno do qual os catálogos de produtos de prateleira são pensados. Soluções padronizadas servem para uma pessoa padrão, e Ninão é o mais distante do padrão que alguém pode ser.
Para nós, é isso que a história realmente mostra: a distância entre o cuidado que existe e o cuidado que serve. Voltar a andar não dependeu só de força de vontade, que é o enredo de sempre das histórias virais. Dependeu de alguém construir algo nas dimensões dele. A maioria das pessoas com necessidades fora do comum, seja de tamanho, de condição ou de orçamento, provavelmente nunca encontra esse alguém.
O pedido veio antes dos aplausos
Vale lembrar a ordem dos acontecimentos. Antes do vídeo triunfante, houve um apelo. Reportagens do Diário do País e de outros veículos contaram que Ninão pedia ajuda para conseguir próteses sob medida depois das amputações. A documentação que temos não diz quem, no fim das contas, tornou isso possível, e não vamos especular.
Mas a sequência levanta uma pergunta incômoda. Se um homem precisa tornar pública a sua necessidade para que uma solução apareça, o que acontece com quem nunca faz isso? Essa é uma inferência nossa, não uma conclusão de nenhuma reportagem, e podemos estar errados quanto ao desenrolar deste caso específico. Ainda assim, é difícil assistir a esse formato de história boa sem se perguntar se um sistema que premia a história mais compartilhável é o mesmo que responde à necessidade.
Não confunda a manchete com a solução
Nada disso tira o mérito de Ninão. Aprender a andar com pernas novas é um trabalho duro, físico e lento, e as imagens merecem ser vistas. A admiração é merecida.
Nossa crítica é ao gênero. "Homem volta a andar" nos convida a nos sentir inspirados e passar para o próximo vídeo. Uma reação melhor é perguntar o que tornou a caminhada possível e se isso poderia acontecer com alguém de quem ninguém ouviu falar. A resposta, neste caso, passou por próteses feitas sob medida numa clínica especializada.
Nosso veredito: compartilhe o vídeo, claro. Depois, dedique mais um minuto à pergunta menos cinematográfica de como o atendimento com próteses é financiado, ajustado e acompanhado no seu próprio país. Dignidade não é um milagre que acontece com alguns sortudos. É um serviço, e serviços podem ser construídos para todos, seja qual for o tamanho de cada um.
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