Os 40 anos de Drake não foram uma festa: foram conteúdo com bolo
Um game show de US$ 1 milhão, bolsas Chanel e Hermès e um show surpresa dos Backstreet Boys mostram que o aniversário de famoso agora é feito para o feed, com os convidados como elenco.
Foto: musicisentropy / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
Quando foi a última vez que a festa de aniversário de um famoso foi mesmo para as pessoas que estavam lá? Os 40 anos de Drake, comemorados em Nova York nesta semana, fazem a pergunta parecer quase ingênua. Os convidados eram o elenco. O público era todo o resto.
As provas estão aí. Drake recebeu mais de 400 amigos e familiares na Casa Cipriani na sexta-feira, 23 de outubro, um dia antes de completar oficialmente 40 anos. A Billboard informa, citando o TMZ, que os convidados ganharam bolsas Chanel e Hermès e que um game show distribuiu prêmios em dinheiro, de dezenas de milhares de dólares até US$ 1 milhão. Os Backstreet Boys apareceram de surpresa, e Drake subiu ao palco com eles para cantar "I Want It That Way".
Foi também o fim de vários dias de comemorações. Teve encontro na CN Tower, em Toronto, voo para Nova York no seu Boeing 767 customizado, o "Air Drake", e um jantar no SoHo. Isso é menos uma festa e mais uma temporada com episódios.
A sacola de brindes é o recurso de roteiro
Bolsas não são lembrancinha. São um adereço com legenda embutida. Um game show não é entretenimento para o salão. É um formato, com suspense, um vencedor e um número grande o bastante para virar manchete. "US$ 1 milhão" viaja mais rápido do que qualquer lista de convidados.
Não temos como saber o que foi filmado ou postado além do que os veículos descrevem, então encare isto como interpretação, não como reportagem. Mas veja como a noite foi montada: uma revelação (a boy band), um sorteio (as bolsas), um prêmio máximo (o dinheiro) e um discurso emocionado. Para nós, isso parece uma estrutura em três atos. Cerimonialistas não costumam pensar em cenas. Produtores, sim.
O momento Backstreet Boys é a parte mais esperta e a mais humana
Aqui é preciso dar o braço a torcer. A surpresa funciona porque não é aleatória. Drake já contou, como relata a Billboard, que ouviu justamente essa música no seu bar mitzvá, quando uma garota de quem ele gostava o chamou para dançar e ele se sentiu "reconhecido" pela primeira vez. Em 2022, o grupo chegou a apresentá-lo como seu "sexto integrante" em Toronto. Quatro anos depois, a música volta como presente.
É boa narrativa e também bom conteúdo: nostalgia, uma referência ao passado e um famoso subindo ao palco com a boy band favorita. É difícil de forjar. Também é difícil separar isso da máquina ao redor, e não achamos que seja preciso. Um momento pode ser sincero e planejado ao mesmo tempo. Essa é a verdade incômoda da fama moderna.
"É sobre estar vivo" é uma bela frase, com um orçamento enorme por trás
No discurso, Drake disse, segundo a Complex, que a noite não era sobre "uma turnê ou o lançamento de um álbum ou um monte de vídeos que gravamos ou uma fragrância ou um tênis da Nike", mas sobre "estar vivo, continuar vivo". É um sentimento lindo. Mas é também um homem listando seus projetos e produtos no meio de uma frase sobre como isso não é para vender nada.
Não lemos isso tanto como cinismo, e sim como autoconsciência. Quando a sua vida é um catálogo, a festa vira o único produto que precisa parecer que não é um. E o momento ajuda: na mesma semana, a RIAA lhe atribuiu 30 novas certificações, tornando-o o primeiro artista a passar de 350 milhões de unidades certificadas. Fica mais fácil apresentar um aniversário como coroação quando os números acabaram de chegar.
Nosso veredicto
Não tenha pressa em debochar do espetáculo, nem em invejá-lo. Festas de celebridades sempre foram uma encenação de status; o feed só fez da encenação o objetivo. O novo é a gramática: sorteios, suspense de game show e uma participação nostálgica, tudo pensado para virar clipe.
A lição para o resto de nós é modesta. Desconfie do "você tinha que estar lá", porque quem estava lá também era cenário. E, se quiser julgar a noite pelos próprios méritos, olhe para o único momento que não precisa de orçamento: um rapper de 40 anos cantando o refrão de uma boy band como fazia no bar mitzvá. Essa parte, pelo menos, parece de verdade.
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