Garotos-propaganda do Master devem aos fãs mais do que uma cláusula de contrato
Quando um rosto famoso estrela a campanha de um banco que depois implode, o cachê é o menos interessante: o que importa é a confiança que os fãs emprestaram e quem a devolve.
Imagem gerada por IA
O que exatamente você compra quando uma apresentadora de TV querida diz que um banco é o futuro? Juros, certamente não. Você compra uma sensação: ela parece confiável, então o banco também deve ser. Essa sensação é o produto, e é a única coisa que ninguém consegue reembolsar.
Por isso as últimas revelações sobre o Banco Master merecem mais do que um dar de ombros. Segundo o Metrópoles, o Master contratou Fátima Bernardes como garota-propaganda por R$ 5,4 milhões, cobrindo o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025. De acordo com a mesma reportagem, ela recebeu o valor integral, rescindiu o contrato quando a crise estourou e não devolveu o dinheiro. O ND Mais acrescenta que ela não está sozinha: Vini Jr., Huck e outros três famosos fizeram propagandas para empresas ligadas ao grupo, em especial o braço Will Bank.
Seus representantes dizem que o contrato foi assinado antes da crise, previa uma cláusula padrão de rescisão por risco à reputação e foi encerrado quando a investigação dos promotores sobre a compra do BRB se tornou pública. Dizem também que ela nunca teve contato direto com Daniel Vorcaro e que as negociações passaram pela agência Pullse. O comercial foi gravado, mas nunca foi ao ar. Tomamos esse relato como está. Nada na documentação sugere que Bernardes tenha violado alguma regra.
Legal não é o mesmo que certo
Sejamos justos: uma cláusula que permite sair de um cliente tóxico é normal, e um contrato lícito não é escândalo. Mas "não fiz nada ilegal" é o patamar mais baixo da vida pública, e os famosos sabem disso. Todo o modelo de negócio deles é que o público lhes concede uma linha de crédito de confiança. Uma propaganda é esse crédito repassado a outra pessoa.
Aqui o comercial não foi ao ar, então esta campanha específica não chegou ao público. Tudo bem. A questão é maior que um filme publicitário. As mensagens entre Vorcaro e sua equipe de marketing mostram a equipe citando uma pesquisa de imagem favorável a ela e propondo uma campanha de reputação para o banco. Ou seja, o que se comprava era a credibilidade dela, como um ativo. Quando o comprador do ativo quebra, é razoável perguntar o que o vendedor deve.
Os fãs não estão no contrato, mas estão na conta
Pesquisas com consumidores brasileiros, como um estudo de rastreamento ocular da Universidade de São Paulo, constataram que as pessoas prestaram mais atenção a marcas e produtos endossados por uma celebridade do que a anúncios com pessoas não famosas. É, suspeitamos, a razão pela qual as marcas pagam esses cachês. Se o efeito funciona quando dá lucro, não pode ser conveniente imaginá-lo inexistente quando as coisas dão errado.
Não exigiríamos que todo embaixador auditasse os balanços de um banco. Isso é irreal, e reguladores e investigadores existem por um motivo. Mas achamos justo um padrão básico: dizer pelo que você foi pago para fazer a divulgação, dizer o que checou e dizer o que faria diferente. O silêncio dá a impressão de que o dinheiro era o objetivo.
Tampouco os casos são todos iguais. Quem teve o comercial engavetado está em posição diferente de quem usou o rosto para vender um produto ao público. A documentação que temos não estabelece o que Vini Jr., Huck e os outros fizeram nem o que dizem seus contratos, então não vamos especular. Essas são perguntas para eles responderem, não para presumirmos.
Como seria uma resposta decente
Devolver o cachê é um gesto generoso, não uma obrigação, e não faríamos disso o teste. Um melhor é mais simples: uma declaração pública clara dizendo para que o famoso foi contratado, que checagens foram feitas, o que ele aprendeu e como vai avaliar o próximo parceiro. Não custa nada, e é exatamente o que uma figura de confiança deve oferecer a quem confiou nela.
Nosso veredicto: a defesa contratual de Bernardes pode se sustentar, e ainda assim não basta. Os famosos desta história não devem aos fãs um pedido de desculpas por existirem num mercado publicitário. Devem a eles uma explicação sobre como escolheram emprestar sua credibilidade, porque essa credibilidade nunca foi só deles. Para os leitores, a lição prática é menos confortável: rosto conhecido não é análise de risco. Confira o banco, não o outdoor.
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