Posts de famosos sobre eleição são sinal de tribo, não persuasão
Os famosos do Brasil correram para reagir à vitória de Lula, e a enxurrada diz mais sobre pertencimento do que sobre mudar a cabeça de alguém. O fã deve ler assim.
Foto: Sintegrity / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Quem, exatamente, foi convencido pelo post de um famoso na noite da eleição? As urnas fecharam, os votos foram contados e a decisão já estava tomada. Mesmo assim, em poucas horas os feeds se encheram de celebridades comemorando ou lamentando. Se o objetivo fosse persuadir, o momento não faria sentido. O objetivo é outro.
O que aconteceu: a volta olímpica chegou na hora marcada
Lula venceu o segundo turno, em 25 de outubro, contra Flávio Bolsonaro. O Terra informa que ele teve 51,76% dos votos, contra 48,24% de Flávio.
Naquele mesmo domingo à noite, segundo o portal, celebridades usaram as redes sociais para reagir: algumas comemoraram o resultado, outras lamentaram a derrota de Flávio. Fátima Bernardes estava entre os nomes citados na reportagem.
O post depois do resultado é um crachá de pertencimento
Ninguém que estava em dúvida muda o voto porque um ator postou uma reação depois de a contagem terminar. Esse tipo de post diz ao público de que time o artista é e convida todo mundo a comemorar ou lamentar junto. É uma bandeira, não um argumento.
Isso não é novidade. Depois da vitória de Lula em 2022, o Al Día observou que Jason Momoa, Mark Ruffalo, Mark Hamill e Barbara Streisand manifestaram apoio a ele, e que Leonardo DiCaprio tuitou sobre a Amazônia. O ritual se repete com um elenco novo. Em nossa opinião, o formato pouco importa, seja post, story ou hashtag. O que importa é que seja público e legível para a sua tribo.
Acrescentaríamos mais uma coisa. A "lista de famosos que reagiram" também faz parte da engrenagem. Os veículos publicam o levantamento porque é barato e provavelmente rende cliques, e os artistas podem contar com ele. Todo mundo sai ganhando alguma coisa, e o eleitor, achamos, é quem menos ganha.
Até o post em época de campanha é mais galo de briga do que lobista
A fase mais ativa foi antes da votação. A Veja descreveu como, em torno do primeiro debate na TV, em 18 de outubro, o veterano ator José de Abreu manteve o apoio a Lula no X e transformou "Não vai lutar contra o fascismo?" em meme. Do outro lado, o influenciador Rico Melquiades postou "Meu presidente, 22" para apoiar Flávio. Os dois campos tiveram suas vozes e, ao que nos parece, ambos falaram sobretudo para quem já estava convencido.
Essa é a função real. Mobiliza a base, dá aos seguidores permissão para dizer a mesma coisa e transforma a política em torcida, com camisa e tudo. Também pode funcionar como pressão: a Veja diz que De Abreu cobrava colegas de profissão para que apoiassem Lula. Na nossa visão, é aí que o custo social de ficar calado aparece. Quando um meme pergunta "não vai lutar?", a segunda metade, não dita, é "e se não for, de que lado você está?".
O que o fã deve fazer com isso
Trate o post político de um artista como informação sobre o artista e seu público, não como evidência sobre o candidato. Se você gosta da pessoa, está livre para curtir a alegria dela ou revirar os olhos. Se quer entender por que um candidato ganhou ou perdeu, leia a contagem de votos e a apuração jornalística. A imprensa internacional, como mostra o levantamento da BBC Brasil, estava ocupada com abstenção, endividamento das famílias e pesquisas que erraram no primeiro turno. Nada disso saiu de um story do Instagram.
Também achamos que há uma lição mais discreta para os próprios famosos. Um post lido como camisa de time será aplaudido pelo time e ignorado por todos os outros, então a recompensa é pertencimento, não influência. É um motivo perfeitamente humano para postar. Só não é a mesma coisa que mexer numa eleição.
Nosso veredito: posts eleitorais de celebridades são inofensivos, levemente divertidos e quase inúteis como persuasão. Aproveite como cultura pop, desconte como política e desconfie de quem, famoso ou não, trata um post como programa de governo.
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