O momento da ashwagandha no TikTok mostra que o hype do bem-estar corre mais que as regras
Um suplemento promovido no TikTok e vendido on-line para a perimenopausa é proibido no Brasil, segundo a Anvisa. A distância entre viralizar e verificar é a verdadeira história.
Foto: Agnieszka Kwiecień, Nova / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Como um suplemento acaba sendo promovido no TikTok enquanto o órgão regulador do país diz que ele não pode ser vendido legalmente? Fácil: o feed não confere papelada. A ashwagandha é a prova mais recente de que as tendências de bem-estar andam na velocidade de um deslize de dedo, e as checagens de segurança, na velocidade de um governo.
Vamos à versão curta. Como informa a Agência Brasil, a Anvisa, agência reguladora de saúde do Brasil, alertou que o suplemento promovido no TikTok não tem registro. A linguagem do órgão é direta: sua fabricação, venda, distribuição e uso são proibidos no país, e a substância não consta da lista de ingredientes autorizados. A proibição não é nova. O site de saúde Saúde Abril lembra que uma resolução de 2022 (RE 3.669/2022) já vetava sua venda, distribuição, fabricação, importação e propaganda.
A proibição é antiga; a viralização é a novidade
A resolução de 2022 é o ponto de partida. O que, em nossa avaliação, mudou foi o público. Uma regra escrita para farmácias e fabricantes encontra em 2026 um adversário bem diferente: um influenciador com ring light e cupom de desconto. Reguladores foram feitos para fiscalizar prateleiras, e o TikTok não é uma prateleira. É um mecanismo de recomendação que premia a confiança, não a conformidade.
Por isso, a pergunta útil não é "a ashwagandha é perigosa?", mas "por que o alerta teve que correr atrás da tendência, e não o contrário?". O aviso chega depois de o discurso de vendas, muito provavelmente, já ter feito o seu trabalho.
A evidência é real, escassa e rotineiramente esticada
Para ser justo com a planta, ela não é enganação por definição. Um estudo de 2021, indexado no PubMed, concluiu que o extrato da raiz de ashwagandha pode ser uma opção segura e eficaz para sintomas climatéricos leves a moderados na perimenopausa. Mas o Medical News Today aponta a pegadinha: só existe um estudo recente em humanos sobre sintomas da menopausa, apenas 91 pessoas o concluíram, e os cientistas sabem pouco sobre a segurança a longo prazo. O site também menciona alguns relatos de caso de tireotoxicose e o fato de que a FDA não regula esses produtos, então os fabricantes não precisam comprovar a pureza.
Até fontes simpáticas fazem ressalvas. Um guia de saúde da mulher admite que a evidência de "equilibrar hormônios" em sentido geral é bem mais frágil do que a indústria do bem-estar deixa transparecer, e que uma versão anterior do próprio artigo a exagerava. Essa franqueza é rara. Em outro lugar, o blog de um médico promete equilíbrio hormonal e termina com um link de cadastro para suplementos. Tire suas próprias conclusões sobre os incentivos.
Esse é o padrão, a nosso ver: um resultado modesto vira "equilibrador de hormônios", depois "solução para a perimenopausa", depois um vídeo curto. Cada passo soa razoável e é um pouco menos verdadeiro.
As lacunas na saúde da mulher são terreno fértil para o hype
Por que a perimenopausa, especificamente? Nossa leitura é que é uma fase em que muitas mulheres querem respostas claras e, suspeitamos, com frequência não as recebem de forma satisfatória. Nesse vazio entra um adaptógeno com pedigree milenar na Ayurveda e um rosto simpático na tela.
Não culpamos ninguém por pesquisar. Culpamos um sistema em que uma necessidade não atendida parece ser servida com mais regularidade pelo marketing do que pela medicina. O hype não cria a lacuna; ele a monetiza.
As ressalvas que importam são justamente as que um vídeo viral pula. As fontes que analisamos dizem que a ashwagandha provavelmente não é segura na gravidez, exige cautela em quem tem problemas de tireoide e doenças autoimunes, pode interagir com substâncias que atuam no mesmo sistema cerebral e não substitui o atendimento médico, já que depender dela pode atrasar a ida ao médico.
Nosso veredito
Se você está no Brasil, a resposta é simples: a Anvisa diz que é proibida e sem registro, então tratamos com grande desconfiança qualquer coisa vendida como ashwagandha por aqui. Em outros lugares, trate "promissor" exatamente como isso. Converse com um profissional que entenda de menopausa, procure testes de terceiros e desconfie de quem termina o conselho em um botão de compra.
A solução maior não é passar sermão nos usuários. É plataformas e reguladores fecharem a distância entre a tendência e a checagem, e sistemas de saúde levarem a perimenopausa a sério o bastante para que o TikTok não seja a primeira parada. Até lá, espere que o próximo adaptógeno viralize antes de alguém ler o rótulo.
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