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Redação Trendsfera
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Benito di Paula provou que o samba nunca precisou de permissão para evoluir

A morte de Benito di Paula evoca a trajetória de um artista que tornou piano, romance e samba inseparáveis — e transformou um som tido como fora de moda em linguagem nacional duradoura.

Publicado
20 de outubro de 2026
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Foto: TVE RS / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Um purista do samba talvez achasse Benito di Paula inconveniente. Ele colocou o romance onde a tradição esperava contenção, fez o piano se comportar como uma seção de percussão e assumiu abertamente sua teatralidade. Esse era justamente o ponto. Benito di Paula não apenas interpretava samba; ele defendia que o gênero podia absorver contradições e ainda assim continuar inconfundivelmente brasileiro.

O cantor, compositor e pianista morreu em São Paulo em 18 de outubro de 2026, aos 84 anos, após cerca de um ano de tratamento contra um câncer de próstata. A maior homenagem já está incorporada à música: um estilo antes rotulado como “samba-joia”, termo de que ele não gostava, tornou-se uma ponte duradoura entre o samba, a canção romântica e a cultura popular de massa.

Sua maior inovação foi recusar uma categoria fechada

Benito nasceu Uday Vellozo em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1941. Ganhou projeção nacional nos anos 1970 com um som construído a partir do samba, de melodias românticas e de arranjos de piano marcantes. Como relembra o Jornal da Paraíba, ele preferia se descrever como “sambeiro” e “pianeiro”, em vez de aceitar a identidade mais restritiva de um sambista convencional.

Essa autodefinição importa. Gêneros são úteis para lojas de discos e críticos, mas os artistas muitas vezes se tornam culturalmente importantes ao fazer essas prateleiras parecerem ridículas. O piano de Benito não ficava comportadamente atrás do vocal. Ele ajudava a criar o impulso rítmico, traduzindo, na prática, a pulsação física do samba para um instrumento associado à elegância, às baladas e à formação musical formal.

O resultado não era um samba diluído nem um simples desvio romântico. Era um híbrido deliberadamente acessível. Na nossa visão, essa acessibilidade não é um compromisso; é o mecanismo de sua influência. Benito entendeu que a música popular sobrevive ao se tornar pessoal para pessoas que não compartilham o mesmo vocabulário musical.

“Retalhos de Cetim” se tornou mais do que um sucesso

“Retalhos de Cetim”, lançada em 1973, ajudou a levar Benito à projeção nacional. “Charlie Brown”, lançada no ano seguinte, reforçou esse impulso. Ao lado de “Mulher Brasileira”, “Do Jeito Que a Vida Quer”, “Ah, Como Eu Amei” e “Amigo do Sol, Amigo da Lua”, essas canções formaram um repertório que os ouvintes puderam encontrar ao longo de décadas, e não apenas durante um breve período de moda.

A dimensão alcançada impressiona: o Jornal da Paraíba informa que Benito vendeu mais de 50 milhões de discos no mundo, enquanto sua música também foi interpretada por artistas brasileiros e internacionais. Mas as vendas, sozinhas, não explicam a longevidade. Um sucesso pode ser enorme e ainda assim desaparecer. As canções de Benito resistiram porque eram emocionalmente diretas sem ser musicalmente tímidas.

Essa combinação costuma ser subestimada. Os guardiões culturais tendem a recompensar a dificuldade, a pureza ou a novidade. O público, por sua vez, frequentemente valoriza o reconhecimento: a sensação de que uma música foi ao seu encontro. O trabalho de Benito oferecia essa conexão imediata sem abrir mão de uma assinatura musical própria. O piano, a interpretação vocal e os arranjos românticos tornavam as canções reconhecíveis antes mesmo que qualquer rótulo fosse aplicado.

Sua imagem fazia parte do argumento

A identidade visual de Benito — cabelos compridos, bigode e roupas extravagantes — não era uma curiosidade decorativa. Ela completava a proposta musical. O artista parecia tão despreocupado com as convenções quanto seus arranjos soavam. Isso importa na cultura popular, em que um estilo se torna memorável quando o intérprete, o som e a persona pública apontam na mesma direção.

Sua carreira também atravessou formatos e lugares. Ele apresentou o programa de televisão Brasil Som 75, na TV Tupi, fez shows internacionalmente em países como México, Japão, Estados Unidos, Angola e Argentina e manteve uma relação com o público ao vivo por mais de cinco décadas. Em 2019, apresentou uma turnê de despedida em João Pessoa, embora tenha descrito o final de “Fim de Papo” como o encerramento de uma longa conversa, e não como um afastamento absoluto de apresentações ocasionais.

Essa frase traduz seu apelo melhor do que qualquer rótulo de gênero. Benito tratava uma carreira como uma conversa contínua com os ouvintes. Até seus trabalhos mais recentes permaneceram ligados a essa ideia: seu último álbum, Essa Felicidade É Nossa, e sua participação, em julho de 2026, em “Benito 85”, show criado por seu filho Rodrigo Vellozo para celebrar o aniversário que ele completaria em novembro.

O legado é influência, não nostalgia

Seria fácil colocar Benito confortavelmente em um museu da música brasileira e considerar a tarefa concluída. Isso seria subestimá-lo. Sua abordagem ao ritmo e ao piano antecipou elementos mais tarde associados aos arranjos do pagode paulista, segundo o Jornal da Paraíba. De modo mais amplo, ele demonstrou que a música popular podia ser romântica, comercial e híbrida em termos de estilo sem pedir desculpas por nenhuma dessas características.

Essa é a lição que a cultura pop contemporânea continua reaprendendo: o formato supostamente “descolado” pode se tornar o mais duradouro quando um artista se entrega completamente a ele. Benito não perseguiu a pureza e não precisou da aprovação de todos os críticos. Construiu uma identidade musical clara o suficiente para viajar e flexível o suficiente para pertencer a várias gerações.

O veredito é simples: Benito di Paula não foi apenas um gigante da música popular próxima do samba. Foi um tradutor cultural, convertendo a pulsação do gênero em piano, romance e espetáculo sem perder sua alma popular. A maneira certa de lembrá-lo não é perguntar se ele se encaixava perfeitamente no samba. É reconhecer que a música brasileira ficou mais rica porque ele se recusou a caber em uma coisa só.

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